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Fernanda era uma menina muito fechada, muito introvertida antes de descobrir como funciona o tal “desabafar”.

Já havia passado por três psicólogas e nada. Conversar com os pais e com as irmãs era a mesma coisa que nada. As amigas não ajudavam em nada.

Fernanda só foi entender o real significado do tal “desabafar” quando foi ao PNEUMOLOGISTA! Ela era paciente asmática do doutor Bassan há onze anos. Gostava de conversar com ele… Ele a ouvia, dava seus conselhos, seus pitacos como um pai e fazia piadas nas quais ela se acabava de rir… depois examinava-a, passava exames rotineiros de prova de função pulmonar que ela nunca fazia e lhe passava as receitas dos remédios.

Um dia, surgiu o tema do tal “desabafar” entre eles durante uma consulta. Fernanda mostrava-se indignada porque não conseguia entender esse tal de “desabafar”…por quê todo mundo conseguia desabafar e ela não? Por quê para as pessoas era tão fácil desabafar, e pra ela não? Ela tentara este exercício várias vezes, em vão. Toda vez que começava a falar, gaguejava, suava frio, o coração palpitava e ela travava. Então o doutor Bassan resolveu explicar como funciona este tal “desabafar”.

” – Você sabe o que acontece quando as pessoas desabafam? ” Ela respondeu que não. Ele então, abriu a gaveta de sua mesa, pegou uma folha sulfite A4,rasgou-a no meio, ficou com uma metade e deu a outra para ela. ” – É isso que acontece Fê… você fica com a metade de seus problemas e eu fico com a outra metade.”

Fernanda saiu do consultório atônita, sem saber o que dizer… Ninguém nunca explicara de maneira tão fácil que desabafar é mais fácil ainda. Começou então a exercer o tal “desabafar”… Nas primeias vezes, gaguejou, tremeu, travou e tudo mais, mas continou… Queria deseperadamente que sobrasse apenas um pedacinho de seu problema.

Pegou sua “cartolina”, dobrou ao meio, deu a metade a Deus! A outra metade ela distribuiu em pedacinhos pequenos para sua família e seus amigos. Hoje, ela não precisa ficar carregando aquela cartolina chata, cheia de colagens pra cima e pra baixo… Hoje ela tem apenas um pedacinho, mas só o tem porque não acha justo que as pessoas levem  a “cartolina” dela sozinhas…

Eram 23:57 quando Clara saiu do banho.

A pressa para descansar era tanta, que nem percebeu a perfeita sincronia da chuva com o chuveiro.

Enrolou-se em uma toalha bordada com seu nome em tons de azul, entrou no quarto e jogou a roupa no armário.  Ao fechar a porta deste,como se fecha a porta de uma geladeira quando não se encontra nada agradável aos olhos do paladar, viu pela janela algo que nunca vira antes.

Era a mandala da chuva.

Na verdade, tratava-se apenas de uma poça d’água, que com o auxílio da chuva fina que ora lançava seus pingos mais grosseiros, e ora seus pingos educados, formavam uma linda mandala… leve e profunda.

Mandala essa, que lhe dizia que ela podia fazer o que quiser ou cair em qualquer lugar.

Na mandala da chuva, o pingo que cai no meio da poça, se abre, se espalha e aparece com facilidade.  Já o pingo que cai distante, contribui como elemento de beleza da mandala.

Não importa aonde o pingo caia.

Cada pingo é uma tentativa,

Cada tentativa, é um elemento,

Cada elemento, contribui e enfeita a mandala.

Cada mandala fala com uma pessoa.

E a mandala que falou no coração de Clara naquela noite, foi a mandala da chuva!

Ao levantar a cabeça, uma surpresa.
Ainda chovia, mas o dia não era mais cinzento.
O sol aparecera expulsando o cinza, dando lugar ao azul-turquesa de seu sonho ao céu.
O coração encheu-se de um “sei lá o que” muito bom, deixando transparecer no rosto, um sorriso feito o de Alice, e permitiu-se a prestar mais atenção em tudo que a cercava.

Primeiramente, olhou dentro do ônibus.
Meu Deus, como haviam pessoas diferentes ali. Isso porque era apenas um ônibus.

No corredor ao lado, um senhor barbudo espantava uma mosca, talvez imaginária, dando tapas descoordenados no batatudo nariz, ao pescar o sono.
À frente dele, duas senhorinhas de olhares aparentemente bondosos, tricotavam sobre a vigília nada boa do padre Miguel.
Em pé, com as duas mãos apoiadas na barra de metal; um adolescente com os fones de ouvido no último volume, embalado pelo som alucinante do “tuntz tuntz”, que hoje cismam em chamar de música boa.
Na catraca, uma moça alta que aparentemente acabara de chegar de uma longa viagem, com um mochilão nas costas, e carregando a casa dentro da mala vermelha e gigante de rodinhas, na mão,  cutucava o cobrador que adormecera em cima dos trocos.
E a chuva limpando o dia.

Cansada daquela realidade momentânea, decidiu ver o que tinha de bom do lado de fora.

Pelo visto, não era a única na cidade a trabalhar no tão sonhado feriado…
Pessoas bocejavam na porta de suas lojas, sem nada a fazer; umas, levando seus cachorros para passear e outras sendo levadas por eles.
Era engraçado de se ver.

Mais a frente, quando o ônibus parou num sinal, viu um grupinho de meninas a brincar de amarelinha….
Desejou ter aquela idade novamente,  quando brincava de elástico, pega-pega, corre cotia, amarelinha, queimada, barra-manteiga e etc… a saudade veio como um esboço de sorriso em seu rosto.
À julgar pelo tamanho e o jeito desengonçado e engraçado de pular as casas, a menina mais nova, caiu ralando o joelhinho a chorar muito… imediatamente as outras meninas e uma moça morena com longos cachos no cabelo, vieram socorrê-la, levando-a para dentro de casa…
Provavelmente, devem ter-lhe afagado os cabelos, encorajando a guria sentada com os braços envoltos nas pernas magrelinhas a olhar o joelho sangrando, encorajando-a a passar o remédio que ao assoprar não arderia tanto…
Mas esta cena já não pôde presenciar, pois o sinal já havia liberado a cor verde.

E o ônibus seguiu.
E Lorena seguiu junto com ele à observar tudo… a chuva que tinha cessado, o mormaço, velhinhos jogando cartas na mesa de concreto de uma antiga praça, o mini-mercado aberto, os cachorrinhos de rua molhados, um casal de namorados no ponto de ônibus ainda debaixo do guarda chuva xadrez, felizes da vida.

Mais uma parada.
Quase não acreditou ao ver sua janela toda verde.
Aconteceu que o ônibus parou encostadíssimo à uma árvore, fazendo com que todo o vidro da janela fosse tomado por folhas.
Folhas úmidas, o cheiro de orvalho, as gotículas escorrendo pelo vidro.
Ficara ali, sorrindo que nem boba para a janela ou para as folhas…já não sabia pra quem sorria…mas sorria, e o ônibus seguiu…

Encostou a cabeça no vidro, e com sede de absorver somente as coisas boas, olhou um pouco para cima e se viu encantada diante daquele imenso arco-íris… tão suave e quente, tão calmo e vivo.

– Inacreditável!  –  Disse admirada.
Tinha os olhos mareados e o coração apaixonado.
Aprendera a se apaixonar naquele dia, naquele ônibus… será o “efeito Alice”?
Seria sempre grata `a menina pelo bem que lhe causara.

Embora não quisesse, notou que já era hora de descer.
Colocou-se na ponta dos pés ao puxar a cordinha azul, e desceu despedindo-se de tudo o que vira e aprendera dentro e fora daquele ônibus…tudo o que ela levaria consigo para o resto de sua vida.

Chegou em seu trabalho, e nada tinha a fazer.
Ainda procurou pequenos trabalhos e detalhes pendentes…e nada!
Então, após trocar a roupa molhada pelo chique uniforme, sentou-se na cadeira, pegou seu livro, e sentiu-se desencorajada à lê-lo de tão molhado que estava.

Pegou então o desenho de Alice e ficou a observá-lo tão encantada a pensar como tudo aquilo pôde lhe acontecer…
“Deve ser coisa de Deus”, pensava…
Como? Mas como uma pessoinha de seis  anos pode mudar seu dia horrível e torná-lo tão belo? Pode ser uma criança, uma borboleta, um velhinho ou um cachorro…
– “É… deve ser coisa de Deus mesmo” ;   verbalizou o pensamento.

Enfim…
Depois de muito observar o desenho de Alice, Lorena adormeceu sobre ele, conseguindo o que queria desde o momento que acordara… voltar pr’aquele sonho.
 Aquele lugar em que havia só ela, a grama e o céu azul-turquesa.
Só que desta vez, em seu sonho havia bem mais coisas…
Havia uma menina banguela de cachos douradinhos no cabelo, acompanhada por sua mãe, havia o riozinho, as nuvens, as maçãs nas árvores, o sol, o cachorro e até a roda gigante!!

E ficou ali adormecida sobre a mesa a sonhar das oito horas da manhã, à uma da tarde quando fora novamente despertada pelo cantar do galo digital.
Mas desta vez não acordara assustada.
Acordou com o coração sorrindo dentro de si.
Acordou muito feliz!

A guria aparentava ter seus cinco ou seis anos, talvez.
Era linda!
Loira, de cabelos encaracolados, olhos bem verdinhos, feito a grama de primavera de seu sonho, e um dentinho faltava-lhe logo à frente.
Diante da educação da menina, Lorena acenou que sim com a cabeça (podia sentar-se ao seu lado) para a menina que retribuiu com o sorriso banguelinha.
A mãe, sentada à frente, agradecera-lhe também.

Encostou a cabeça na janela, concentrando-se apenas na música, quando ouve de repente:

– O que você está vendo? – Perguntou a menina toda curiosa e instigada, querendo saber o porque Lorena olhava tanto e só para fora…  – É uma nuvem?
– Oi? O que você disse? Eu não ouvi, desculpe…

A menina deu de ombros, com riso de janelinha e charmosa, desculpando-a.

– Perguntei o que você está vendo… é uma nuvem? Qual é a forma dela?
– Ahh, não é nada não….. como é o seu nome?
– Alice, muito prazer
  –  disse a menina estendendo animada a mão direita e perguntando em seguida  – e você?
Lorena estendeu a mão para a menina notando suas unhas tão pequeninas pintadas de esmalte cor-de-rosa com glitter… “que graça”- pensou… e disse: – Lorena, muito prazer também…
– Então Alice… não é nada demais não…
– Hum… pensei que estivesse vendo algo bonito. Queria ver também….
– Ah que pena…
disse sem paciência – mas outro dia você vai encontrar uma coisa beem bonita pra ver.
– É que…eu queria ver hoje… agora… e com você.

PUTZ! Era só o que faltava… além de trabalhar num sábado de feriado, bater a cabeça, ser molhada da cabeça aos pés pela água de uma poça imunda, tomar chuva e perder o guarda-chuva, agora ter que aguentar uma criança querendo ver algo bonito com você, justamente quando você só quer fechar os olhos e dormir, era uma coisa que não agradava Lorena no momento.
Conteve-se em paciência, pois além da menina ser adorável, sua mãe estava sentada a frente á escutar tudo.
 
– Talvez eu não consiga enxergar as coisas bonitas hoje, porque estou muito cansada, sabe Alice…?
– Hum… sei como é… quando eu vou na festa das minhas amigas, fico muito cansada… você foi na festa da sua amiga?
– Não, não fui não
  –  respondeu Lorena achando graça…
Não? Então por quê você ta cansada agora de manhã?

Lorena emudeceu-se por um instante, pensativa e perguntou em seguida…

– Você tem algo bonito para me mostrar Alice?
– TENHO!
   –   respondeu com um sorriso elefantesco no rosto.

Vasculhou a bolsinha de tecido transversal lilás com borboletas, e tirou dela um papel e o abriu…

– Tenho esse desenho, olha…. é bem bonito!

Foi o bastante Lorena olhar o desenho, e ficar boquiaberta.

– UAU Alice! Nossa! Lindo! Muito bonito mesmo! Parabéns!

O desenho de Alice:

Um lugar.
Um lugar desconhecido, com grama, e um céu azul-turquesa.

Nota:  Também havia uma árvore.

A menina riu timidamente agradecendo os elogios.

Aquele era o lugar que Lorena tanto buscava, desde que acordara.

– Sabe, eu ainda não terminei… ainda faltam as nuvens e as maçãs das árvores… eu adoro maçãs  –  e ah, falta também o sol, um riozinho, eu e a minha cachorrinha… queria desenhar uma roda gigante também, mas acho que não vai caber no papel, né?  –  finalizou.
É Alice, a roda gigante é bem gigante mesmo…acho que não vai cabe aqui não... – respondeu contemplando a menina.
– É… pensei nisso. Mas dá pra desenhar na cartolina que é gigante que nem a roda!
– Boa idéia! Na cartolina dá até pra desenhar o parque de diversões inteiro, se quiser…

A menina soltou uma gargalhada alta, aguda e verdadeiramente bela, fazendo até sua mãe virar-se para trás rindo também…

– Vamos filha? Já chegamos… dá tchau pra moça…
– É Lorena mããe!

– Então dá tchau pra Lorena filha… – disse a mãe rindo…

-Tchau Lorena! Despediu-se a menina com um abraço e um beijo em Lorena…  – Toma…pode ficar pra você!  E entregou-lhe o desenho.

– Poxa Alice… muito obrigada!
– De nada!

– Tchau tchau  LORENA – disse a mãe da menina enfatizando seu nome, rindo timidamente…
-Tchau… até mais.
– Tchau Lorena!
– Disse agora a menina já descendo do ônibus, agarrada à mão da mãe…
– Tchau Alice…e muito obrigada!!!

Elas acenaram alegremente dando tchau e beijinhos, e o ônibus seguiu.

Ainda com o fone no ouvido, ficou a admirar o desenho, e a tentar entender o que lhe ocorrera…
Dobrou a folha ao meio, e conservou-a cuidadosamente em suas mãos, para não correr o risco de molhar…

Continua…

Chovia…

Quando acordou, assustada com os pingos que batiam com brutalidade em sua janela, desejou não mais acordar.
Fechou os olhos em desespero a voltar para seu sonho, onde havia somente ela (Lorena), a  grama, e o céu azul – turquesa, livre da independência indiferente das nuvens.

Quando enfim, estava quase a voltar pr’esse lugar desconhecido, fora abruptamente interrompida pelo cantar do galo digital –  uma dessas modernidades para aparelhos eletrônicos.
Tomada pelo susto, levantou rapidamente a cabeça, batendo-a com força na luminária presa à sua cama.

– AAHHH! – Exclamou com raiva, quase a acordar a irmã que balbuciava palavras como querendo-a mandar calar a boca, se revirando revolta na cama abaixo.

Passado o susto, sentou-se para tentar acordar.
Com cotovelos apoiados nos joelhos, e mãos ao rosto em movimentos circulares a esfregar os olhos, tentava pensar que não teria que levantar para trabalhar – mas teria.
Inclinou-se para trás, elevando os braços, pernas e todo o corpo, feito gato a se esticar.
Do lado de fora, também ouvia-se os ossos a acordar.
Sentou-se novamente suspirando desânimo.

Abriu a janela, e de imediato, recebeu em suas pernas desnudas da camisola amarrotada, pingos que mais pareciam-lhe gotas de gelo.
Avermelhou-se de uma raiva matinal, contendo-a para não acordar a irmã.
Desceu da cama e seguiu para o banheiro, onde tomou um banho e vestiu-se o mais rápido que pôde.
Ao cabelo cheio de nós, deu-lhe um sonolento penteado, que visto de longe, lembrara um coque.
Mas só de longe – e definitivamente não era um coque.
Era um “sei lá o quê” cheio de cabelo…

Encheu o peito e a cara ainda amarrotada pelo sono, de coragem, e seguiu.
Ao sair do prédio, percebera que seu ônibus havia acabado de passar, fazendo com que suas têmporas ganhassem mais um tom de: vermelho- raiva.
Seguiu então, a caminho do ponto de ônibus, tentando equilibrar-se entre a bolsa pendurada no ombro esquerdo, a chuva, o vento, e o guarda chuva ameaçando fugir de sua mão direita.
Quanto mais se equilibrava, e mais depressa andava, mais chovia…
E chovia com grosseria e ousadia.

Após dez minutos de luta constante contra a chuva, o vento, e seu corpo, conseguiu enfim, chegar  ao seu destino.
O ponto de ônibus.

.

.

E lá esperou.
E enquanto esperava, a chuva aumentava;
O guarda – chuva tremia  –  ela, metade molhada.
Avistara ao longe, um carro a deslizar ligeiro pelo asfalto em direção à rua onde encontrava-se  desequilibrada, e logo percebera o que aconteceria em… 10, 9, 8, 7, 6 …

Recuou ao máximo que pôde, encostando-se na parede cinzenta, de rústica e rochosa textura, colocando inutilmente o guarda – chuva já do avesso à sua frente, quando … 5, 4, 3, 2, 1, e… então passaram- se as rodas do automóvel apressado, por cima da poça, molhando-a de corpo inteiro, fazendo-a perder seu guarda – chuva pelo susto da água suja e gelada vinda da poça, e pelo vento que o levara ao avesso.

Gritar com alguém era a sua vontade.
Mas não o fez, porque não tinha com quem partilhar a sua raiva; e… mesmo se houvesse, não o faria. Não fora esta ríspida educação que recebera.
Restou então, cruzar os braços e esperar o outro ônibus ali mesmo… embaixo da chuva.
As gotas pareciam tapear-lhe a cara de tão rápidas, frias e grosseiras.
Tentava levar seu pessimismo pra longe, mas não conseguia.
Se o dia já a tratara assim logo pela manhã, o que mais aconteceria?
Prometeu não pensar nas terríveis possibilidades, pois sabia que teria um dia daqueles…

Avistou alguém chegando ao ponto, a fazer-lhe “companhia”, e desejou ser aquele alguém que estava seco, de casaco e guarda-chuva por um instante, mas logo desistiu da idéia ao ver seu ônibus se aproximar.

Adentrando ao saculejante transporte, percebera todas as atenções voltadas para si, devido ao seu traje encharcado, e ao seu desajeitado modo de passar pela catraca tão irritadamente, fazendo a alça da bolsa prender enquanto a catraca girava, levando-a  à um quase-tombo.

.
Após os dez segundos mais longos de sua vida, passeou o olhar por todos  os lugares, escolhendo o mais distantes dos olhares e ali sentou.
Ajeitou a bolsa de preta de tecido, completamente molhada em seu colo, colocou os fones no ouvido, e… tomada pelo susto do último volume da música, pulou do banco, fazendo os olhares voltarem novamente para si.
Retribuiu-os com o sorriso mais amarelo que achara em seu rosto apático, e disfarçadamente diminuiu o volume.

A música que tocava, era limpa e suave.
Ouvia-se todos os instrumentos poetizarem.

Abria e fechava os olhos lentamente e inúmeras vezes na frustrada e inútil tentativa de voltar àquele lugar. Aquele, de seu sonho.
Numa das vezes em que abriu os olhos, deparou-se com uma menina em sua frente, pedindo muito educada e docemente, licença para sentar-se ao seu lado….

Continua…

Mar aberto,
Tempestade tenebrosa,
E um casal lutando pra sobreviver…

.
– Lauraa, meu amor, cadê você? LAURAAAAA…
– Aqui meu amor! Estou tão assustada!
– Não fique assustada querida, se segure em mim!

.

Porém, uma onda violenta os separou novamente…
E cinco minutos depois…

.

– LEONARDOOO!! LEONAAAARRDOOOOOOOOO!!!!
– Laura querida…aguente firme…já estou indo…

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Leonardo nadava corajosamente contra a corrente para ir de encontro com sua amada, quando se deparou com algo realmente extraordinário, e exclamou:

.

– OH! UMA ILHA!!

.

Com muita bravura, o rapaz nadava cada vez mais, e suas forças já pareciam esgotá-lo, mas finalmente conseguiu!

Laura estava apoiada em uma bóia branca com grandes listras vermelhas que achara na luta contra sua própria vida, enquanto seu amado havia conseguido pisar na ilha em que cabiam somente ele, ela e o coqueiro.
Sendo assim, agarrou seu braço no coqueiro, inclinou todo seu corpo, e estendeu a mão para sua amada…

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– Vamos Laura, segure minha mão querida!
– Não posso Leonardo… estou muito longe…
– Faça uma força meu amor! Nade mais um pouco…
– Tá…vou tentar…

– Isso querida, iiisso, muito bom meu amor, continue… isso querida, vem…olhe pra mim, sem medo, iisso…vem, vem, mais um pouco meu amor…isso…agora só mais um pouquinho, isso…PRONTO! Agora me dê a sua mão…

.

Laura se encheu de coragem, e estendeu a mão para o seu amado que a colocou novamente em terra firme e disse-lhe emocionada:

.

– Oh! Você salvou a minha vida Leonardo! Meu amor! Meu herói!!
– Oooooooohhh… eu te amo minha querida Laura! Ia esperar pra te perguntar, mas depois de tudo isso, vou perguntar agora…

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E tirou de seu bolso, um anel de pedras vermelhas e preciosas e disse à sua amada:

.

– Laura, quer se casar comigo?
– Oh! Não sei nem o que dizer… é claro que sim!

.

E se beijaram!

.

.

E FIM!!

.

.

.
Não…
Não é peça de teatro, nem novela e muito menos um livro de romance.
São apenas, Laura e Leonardo;
Duas crianças de seis anos de idade, brincando no pátio da escola enquanto aguardavam a professora chegar.

.

Ps: O anel de diamante são aqueles que vem de “surpresa” nos salgadinhos.

Eram muitas as árvores.
Uma maior que a outra.
O céu era borrifado de nuvens bem branquinhas.
O cheiro da natureza, lhe penetrava as narinas a cada vez que respirava fundo.
Talvez quisesse trazer consigo a sensação do frescor daquele instante, e resgatar as lembranças de sua infância.
Ou quem sabe, apenas alguma parte dela.

Sempre odiara o silêncio.
Dizia que a incomodava.
Mas lá, aprendeu a ouví-lo, e precisá-lo.
Descobrira que silêncio tinha um som!
E tinha mesmo!
Não era insana…
É que se trata de um som que poucos conseguem escutar.
Apenas os privilegiados.
E ela era uma.

Estava descalça, e sentia a ponta das gramas fazer-lhe cócegas nos pés.
Ria. Era boa a sensação.
De longe, ouvia os pássaros conversando entre si.
“Devem estar felizes, porque o dia está sorrindo para eles hoje”  –  ela pensava.

Sem se importar muito com a sujeira da terra e o pinicar da grama, deitou-se no chão, e brincou de revelar desenho nas nuvens…
Na verdade, não conseguira ver desenho algum, pois a claridade do dia era tão intensa, que quando tentava decifrar algo, sua vista logo se embaçava.
Lembrou apenas de um, que em um momento de folga, o sol lhe permitira ver…
Era um unicórnio. Um unicórnio com cauda de peixe, que parecia prostar-se à ela.
Achou estranho; mas pareceu gostar.

Cansada daquela claridade amarelada, recostou-se à sombra de uma árvore, e deixou que aquelas folhas tão vívidas, impulsionadas pelo vento, fizessem sua apresentação.
Uma linda dança.

Fechava e abria os olhos lentamente enquanto a suave música tocava.
Deixava a brisa passear vagamente por sua pele.
Sorria,
Podia escutar o bailar das folhas, no ar e no chão.
Percebeu o vento cochichar em seus ouvidos, que já estava na hora de ir, e que depois voltaria.
Ignorou-o.
Podia ouvir cada vez mais alto, o conversar e cantarolar dos pássaros…
Era um canto doce, mas eram muitos.
Cantavam com toda emoção que saía de dentro daqueles mínimos corpinhos.
E cantavam muito, muito alto.

Acordou com o despertador histérico, o estresse das buzinas , e os gritos do telefone.
Colocou novamente a cabeça em seu abundante travesseiro, e afundou-a,  anseando voltar o mais rápido possível para aquele lugar.
Um lugar que desconhecia.
Foi neste momento que descobriu qual é o som do silêncio que até então sempre odiara. 

O sopro da brisa, o bailar das folhas.
O sussurro do vento.
O andar das nuvens, as cócegas nos pés.
A mordida que dera em uma cereja.
O canto dos pássaros

Tudo isto era o silêncio.
O  silêncio, que em um ínfimo segundo aprendera a amar!

Estava voltando da casa de não sei quem, com um baita sorriso no rosto, toda boba-alegre.
Aí, no meio do caminho, encontrei um coral de gatos e cachorros super afinados que cantavam: “É devagar, devagarinho”, do Martinho da Vila… e quem regia este coral era um rato gordão de imensos bigodes.
Achei curioso, diferente… tive vontade ficar e apreciar a música, mas tinha que ir embora… e fui!

Andei um pouco mais, e alguém me chamou…
Era um pincel sujo da cor violeta…
Todo cheio de si, queria uma sincera opinião sobre sua obra de arte.
Quando me mostrou, quase não acreditei… ele pintava um arco-íris!
Sem pedir permissão ao senhor pomposo, eu escorreguei em seu arco-íris, e enquanto descia, vi coisas que não estamos acostumados em ver em nosso cotidiano, como por exemplo: Sorvetes com cobertura neon, um sol de óculos escuros, políticos trabalhando justa, sincera e árduamente, uma flor peruíssima de biquíni e notas musicais bailarinas.
Era tudo muito lindo!
Mas ao chegar no final do arco-íris, o amargo gosto da frustração tomou conta de mim, pois não encontrei o baú de tesouros, nem aquele monte de doces e muito menos o pote de ouro que estamos tão acostumados a ouvir pelas lendas da vida.
Ao invés toda esta porção de coisas boas, encontrei uma rua escura… e como não conseguia subir no arco-íris de volta, comecei a andar por ela.

De repente uma música dessas de filmes de bang-bang, de guitarras muito chorosas e gaitas resmungonas, que tocam no momento em que o bandido adentra ao local onde o mocinho se encontra, anunciando que a hora do duelo está há um segundo de acontecer, começa a tocar…
Mas ao virar para trás, ao invés de encontrar um cowboy, encontro um palito de fósforo com uma jaqueta de couro preta, óculos escuros, e de cabelo moicano, no maior estilo “bad boy” de ser…
Detalhe: Seu cabelo estava em chamas!

Ele me disse:

-Vem cá!

Eu respondi:

– Eu não! Tá doido? O que é que você quer?
– Eu quero te beijar!
– Você é um tarado?
– Nããooo…eu só quero te beijar!

– Mas aí você vai me queimar…
– Eu não ligo… vem aqui.
– Nããoo…sai de perto de miiiimmmm!!!!

E aí começou a fuga…
Era uma rua reta, longa, estreita e sem saída. Quando cheguei em seu final, o malvado palito me pegou de jeito e disse:

– Um beijo e nada mais, meu bem!!

Foi quando ele me colocou em pose de beijo de cinema e foi se aproximando.
E eu desesperada, chorava e gritava:

– Me laargaa…você vai me queimar…. SOCOOOROOOOOOOO!!!!

Ele se aproximava mais, e eu me assustava mais,
Ele dizia que não era nada demais, e eu achava que aquilo já era de mais,
Seu cabelo acendia cada vez mais,  a luz era forte demais!
Já não suportava mais…

– NÃÃÃÃÃÃÃÕOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!

… E na hora que gritei, acordei!

Nota: Este sonho eu tive quando tinha dez anos de idade.

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Difícil falar dos dias que tem feito por aí.

Eu particularmente, não gosto muito de dias cinzas.
Prefiro os azuis…
E embora a cor azul não seja a minha favorita, no céu, é impressionante de se ver como fica linda!

Os dias cinzas… não sei…
São de uma inércia sem tamanho.
Não dá vontade de acordar, sair na rua.
E quando se sai, aquela mesma coisa de sempre.
A nebulosidade pesada, uma nota de melancolia.
As pessoas estranhas… todas iguais, sem nada a dizer.
O funga-funga presente nos narizes,
O lilás-avermelhado presente nas varizes,
E raras pessoas verdadeiramente felizes.

Dias azuis não são assim.
Existem dois tipos: Azul-Quente  e  Azul-Frio.
Ambos são bons.
Mas ainda prefiro o azul-frio.

O que eu mais gosto nesses dias, são suas variações.
São congelantes de tremer os lábios,
Estranhos de confundir os sábios,
Quando num ato de ousadia,
O sol faz-se iluminar com seus raios.
Acessórios vem à tona.
Segredos, risadas, dúvidas e choradeiras,
São revelados debaixo de cachecóis multi-coloridos, casacos sobretudo, e óculos variados…
1, 2 e … click!
Olha a foto que tirei da florzinha vermelha de poucas pétalas que brotou no meio da calçada!
Linda não?

Esses dias são apaixonantes!
Nos aguçam os sentidos.
Nos deixam exibidos; outros inibidos…

Nos prendem a atenção,
As vezes nos deixam sem palavras, sem ação.

Esplêndido dia, não?

Sintaxe à vontade

"Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser.
Todo verbo é livre para ser direto ou indireto.
Nenhum predicado será prejudicado;
Nem tampouco a vírgula, a crase, nem a frase, e nem o ponto final!
Afinal, a má gramática da vida nos opõem entre pausas, entre vírgulas; e estar entre vírgulas é aposto.
E eu aposto o oposto que vou cativar a todos, sendo apenas um sujeito simples!"


GALERIA NAGULHA

julho 2017
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Tem gente!

Sobre a Leitura



"Deve-se ler pouco e reler muito.
Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem.
É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

Nelson Rodrigues


"Apenas se deveriam ler os livros que nos picam e que nos mordem.
Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo?

Franz Kafka.
SOBRE A ESCRITA...

"O que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la!"


"Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos.
Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por uma extrema simplicidade de linhas.
Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras."


"Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir
Não sou pretenciosa.
Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando "...


"A palavra é minha quarta dimensão.
[...] escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é a palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca - alguma coisa se escreveu."


"Eu só escrevo quando eu quero. Sou uma amadora, e faço questão de continuar a ser amadora.
Profissional, é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro.
Agora eu faço questão de não ser profissional, para manter a minha liberdade"

Clarice Lispector

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“PRATRÁSMENTE…”

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"É somente pelo amaciamento e disfarce da carne morta através do preparo culinário, que ela é tornada susceptível de mastigação ou digestão; e que a visão de seus sucos sangrentos e horror puro, não criam um desgosto e abominação intoleráveis."

Percy Bysshe Shelley.

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