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Sabe aqueles dias, em que a gente acorda se sentindo esquisito, com uma dorzinha no peito, vontade de chorar sem motivo, e a sensação de que os anos estão passando, e nos acusando de que estamos nos tornando cada vez mais inúteis a cada dia útil que eles nos concedem?

E que por causa desses dias, dessas acusações e das dores, você se tranca em si, não sorri mais e fica um pé no saco de tão chato?

Aquela sensação angustiante…

Sabe?

 

Então…

Dirce estava num desses dias quando entrou no rotineiro
ônibus, emburrada, e com o rosto lavado por águas que não sabia como e porque haviam escorrido de si.

Após uns dez minutos de percurso, um senhor sentou-se ao seu lado.

 

- Creio que este, não seja o melhor momento da senhorita. – Disse ele repentinamente.

 

Dirce olhou para aquele senhor de mãos trêmulas apoiadas por uma bengala, meio assustada, mas preservou o silêncio.

Como se adivinhasse que Dirce queria conversar sem colocar em uso as suas cordas vocais, começou a falar lúcida e desenfreadamente…

 

- Sabe menina, quando eu era moleque, de subir em árvore, de jogar futebol e figurinha na rua, aquele era o meu melhor momento.

Quando eu tirei o meu primeiro dez na escola em matemática, aquele foi meu melhor momento.

Quando fiquei moço, e que tive as minhas primeiras namoradinhas, aquele foi o meu melhor momento.

Meu casamento… ah, meu casamento foi lindo! Se a senhorita existisse naquela época, eu a convidaria.

E quando eu tive meus dois filhos e minha menininha então… Samuel, Isaque e Clarissa…

- Foi o seu melhor momento? – esboçou Dirce num meio sorriso perdido.

O velho gargalhou e respondeu: - Mas que voz bonita a senhorita tem! Qual é a sua graça?

- Dirce.

- Muito prazer Dirce, meu nome é Cícero.

- Prazer.

- Então, minha querida…tudo o que eu vivi, foi o meu meu melhor momento sempre! Agora eu estou aqui conversando contigo e este, é o meu melhor momento.

E quando eu chegar em casa, vou dar um abraço bem apertado na minha Clara, vou jantar com ela e dormir abraçadinho. E quando os meus filhos e meus netos vierem almoçar conosco no domingo, e quando eu sair para jogar dominó na praça amanhã de manhã…tudo será o meu melhor momento!

Hoje, você não está no seu melhor momento Dirce, mas se esforce para fazer das próximas horas, minutos e segundos, o melhor dos melhores momentos da sua vida.

 

Um breve silêncio pairou no ar.

 

- Bom filha, agora eu tenho que descer; vou de encontro ao meu próximo momento. Que seja o melhor!! Até mais!

- Até, e obrigada.

- Disponha!

 

Dirce desceu três pontos depois de Seu Cícero, decidida a fazer o que ele lhe indicara.

E a cada dia que ela se pega apenas no pensamento de entristecer-se, se lembra daquele velhinho simpático, daquela história, daquele dia como o seu melhor momento;

Sempre!

Acordei Bemol
Estava tudo Sustenido.
Sol fazia,
Só não fazia sentido

{.Paulo Leminski. }

Sintaxe à vontade

"Todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser.
Todo verbo é livre para ser direto ou indireto.
Nenhum predicado será prejudicado;
Nem tampouco a vírgula, a crase, nem a frase, e nem o ponto final!
Afinal, a má gramática da vida nos opõem entre pausas, entre vírgulas; e estar entre vírgulas é aposto.
E eu aposto o oposto que vou cativar a todos, sendo apenas um sujeito simples!"


 

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Sobre a Leitura



"Deve-se ler pouco e reler muito.
Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem.
É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

Nelson Rodrigues


"Apenas se deveriam ler os livros que nos picam e que nos mordem.
Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo?

Franz Kafka.
SOBRE A ESCRITA...

"O que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la!"


"Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos.
Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por uma extrema simplicidade de linhas.
Todas as palavras que digo - é por esconderem outras palavras."


"Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir
Não sou pretenciosa.
Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando "...


"A palavra é minha quarta dimensão.
[...] escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é a palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca - alguma coisa se escreveu."


"Eu só escrevo quando eu quero. Sou uma amadora, e faço questão de continuar a ser amadora.
Profissional, é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro.
Agora eu faço questão de não ser profissional, para manter a minha liberdade"

Clarice Lispector

"PRATRÁSMENTE..."

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"É somente pelo amaciamento e disfarce da carne morta através do preparo culinário, que ela é tornada susceptível de mastigação ou digestão; e que a visão de seus sucos sangrentos e horror puro, não criam um desgosto e abominação intoleráveis."

Percy Bysshe Shelley.

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